


Sabe por quais mecanismos as
espécies se modificam?
(Descubra o que eles têm a ver com Darwin e com você.).
Como Darwin já dizia, a seleção
natural é o principal mecanismo pelo qual as
espécies se modificam, mas não o único.
Alguns deles são obras dos animais
humanos, que, em intervalos de tempo cada vez mais
curtos, assumiram novas
formas de controle sobre a vida na Terra (se é que estamos tão
no controle assim!).
Artificiais? Bem, depende de onde posicionamos os humanos na ideia
de
“natureza” que construímos: como mais uma parte dela ou como seres à parte.

Joseph C Boone | CC BY-SA 4.0.
Os pássaros da família
Ptilonorhynchidae (bowerbirds), nativos da
Austrália e da Papua Nova Guiné, capricham
em construções decoradas
para conquistar as fêmeas. A competição é acirrada, com direito
a roubo
de decoração e destruição da obra dos rivais. Para completar, exibem
suas
habilidades na “dança” e no canto.
Tanto a variação quanto a seleção sexual foram abordadas por Darwin
em seus
livros (A Origem das espécies,1859, e A Origem do homem e a
seleção sexual,
1871). Fritz Müller também as observava: por exemplo,
publicou um artigo sobre
a seleção sexual de borboletas, em 1877.
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Desde a origem da vida
A seleção natural você
conhece: os mais aptos a certo meio
sobrevivem, reproduzem-se mais e transmitem suas
características.
Porém, para conseguirem se reproduzir, muitos ainda precisam ter
aparência, habilidades ou comportamentos atraentes para o
parceiro ou
polinizador – é a seleção sexual, que também ajusta
as características que perdurarão
na espécie. Além disso, qualquer
seleção só é possível se existirem variações entre
os indivíduos, o
que pode acontecer por mutações espontâneas, pelo resultado da
combinação única de características herdadas dos “pais” (que
torna os irmãos diferentes
entre si), ou pelo contato de populações
diferentes que migram ou crescem e, com
isso, introduzem novos
alelos no outro grupo (o fluxo genético).
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Desde a domesticação
de plantas e animais
Com a domesticação iniciada
há milhares de anos, as pressões do meio
mudaram: cães mais dóceis e humanos mais
tolerantes à lactose
passaram a ter vantagem na seleção natural (bem, nem sempre...);
a
eficiência de uma planta na dispersão natural de suas sementes deixou
de ser
essencial para o sucesso da sua reprodução. Também passamos
a levá-los conosco
ao migrarmos, dando um empurrãozinho no fluxo
genético. E principalmente, começamos
a escolher quais indivíduos vão
se reproduzir: aqueles com as características mais
desejáveis para nós.
Assim, pela seleção artificial, produzimos frutos mais doces,
frangos mais
peitudos, ovelhas mais lanudas, cavalos mais rápidos, brócolis e couve
a partir da mostarda silvestre e cães para todos os gostos e funções.
Nossas
“melhorias” na natureza, no entanto, nem sempre são boas para
eles ou para a
biodiversidade.

VitaminGreen | CC BY-NC 2.0.
Assim é a banana selvagem,
bem mais difícil de comer do que a
domesticada do nosso dia a dia.
Darwin já falava do tema em A Origem das Espécies (1859), pois
suas observações
sobre a domesticação o ajudaram a desenvolver
a hipótese da seleção natural. Mais tarde,
escreveu o livro A
variação de animaise plantas sob domesticação (1868).

Takuya Matsuyama | CC BY 3.0.
Tóquio, capital do Japão.
Sua Região Metropolitana é a mais
populosa do planeta, com mais de 37 milhões de habitantes.
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Desde o boom na
população e na economia
mundiais
Levou 200 mil anos para a
população mundial chegar a 1 bilhão,
por volta de 1800, e pouco mais de 200 anos para
chegar a 7
bilhões, devido a uma combinação de progresso material, avanços
científicos
e altas taxas de fecundidade, que impulsionou a nossa
espécie. As cidades incharam,
e a produção e o consumo de bens,
alimentos, serviços e energia cresceram,
especialmente em nações
mais ricas. Junto com isso, vieram mudanças no clima, na
atmosfera,
no solo, nas águas, na biodiversidade e na paisagem. Além disso, a
seleção artificial se intensificou em resposta às nossas demandas.
Com nossa
interferência no ambiente, muda também o rumo da
seleção natural: algumas espécies
prosperam com as novas
condições; outras precisarão migrar ou poderão perecer.
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Desde o desenvolvimento
da engenharia genética
Na década de 1950, descobrimos
a estrutura do DNA; na de 1970,
aprendemos a manipulá-lo em laboratório; na de 1990,
mapeávamos
genomas inteiros. Hoje, sabemos como identificar e selecionar embriões
com as características desejadas antes de implantá-los. Ou como
adicionar,
substituir, alterar e “transplantar” genes de outras espécies
para deixar
culturas agrícolas mais resistentes ou nutritivas, fazer
bactérias produzirem
insulina humana ou gravarem imagens, garantir
que mosquitos transmissores de
doenças nasçam cegos ou inférteis (o
que os extinguiria com o tempo), tratar
dezenas de doenças genéticas e
criar híbridos com animais extintos. O potencial
é enorme – de
benefícios e de perigos, se mal utilizados.

Mamute – modelo no Royal British Columbia Museum | Thomas Quine | CC BY 2.0
“Desextinção”? Ainda não
dá. Mas desde 2021, cientistas norte-
americanos tentam produzir um híbrido de
elefante asiático com o
extinto mamute. O elefante deve ficar mais gordinho,
mais peludo,
com orelhas menores e talvez sem presas, para que sobreviva ao frio
e aos caçadores de marfim e possa ser “reintroduzido” no Ártico.
Essa história está
aqui: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/
cientistas-recebem-us-15-milhoes-para-ressuscitar-mamute-
extinto-ha-4-mil-anos/

Biolife4D | Divulgação
Bioimpressoras já são
capazes de imprimir partes de seres vivos. O
material contém células tronco que
se transformam em tecidos
vivos e funcionais. Dá para fazer pele, cartilagens,
ossos e músculos
– até coração, como mostra a imagem. Com mais pesquisa e
desenvolvimento, a tecnologia poderá ser finalmente testada em
humanos. Ela
está criando corpo – literalmente!
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E o futuro?
Diz-se que vivemos no
“Antropoceno”*, a era em que os
humanos são uma força dominante na Terra. O que
mais
esperar dele? O pesquisador e ambientalista britânico James
Lovelock afirma
que já o deixamos e entramos no Novaceno,
período dominado pela inteligência
artificial – uma de nossas
criações. No futuro, o mundo estará cheio de
ciborgues
(misturas de ser humano e máquina), muito mais inteligentes
que nós,
buscando criar as condições para a própria sobrevivência
e replicação. Com ou
sem eles, a organização holandesa Next
Nature (“Próxima Natureza”) também aposta
na fusão da
tecnologia com a biologia, que já é uma realidade: a
tecnologia é
cada vez mais integrada no ambiente, sentida
como natural e um motor da
evolução – inclusive, da espécie
humana. Como você imagina o futuro da vida
na Terra?
Imagine à vontade! Mas lembre-se: a seleção natural resulta de
uma combinação
complexa de pressões do meio atuando sobre
mutações aleatórias, imprevisíveis,
que ocorrem o tempo todo
em todas as espécies. Não estamos no controle. Duvida?
Veja o
que um vírus minúsculo é capaz de fazer. Como diz a Profa.
Andrea Marrero,
da UFSC, “o futuro, à seleção pertence!”.
*Termo criado
por Eugene Stoermer na década de 1980 e popularizado por Paul
Crutzen em 2000.